Maria Bogado

Não recomendado para menores de 12 Anos
Conteúdo impactante

Maria Bogado

Fazemos da memória nossas roupas
2020, 15min, RJ
Não recomendado para menores de 12 Anos
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Maria Bogado

Fazemos da memória nossas roupas
2020, 15min, RJ
Não recomendado para menores de 12 Anos
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Fazemos da memória nossas roupas
Fazemos da memória nossas roupas
Sabine falou de uma herança mágica e material. É com ela que fazemos nossas roupas.

* Este filme conta com Legendas ENG 

Empresa Produtora: Anarca Filmes
Direção: Maria Bogado
Produção: Maria Bogado
Produção Executiva: Maria Bogado
Direção de Fotografia: Clarissa Riberio
Som: Anicca Malaquita
Montagem: Clarissa Riberio
Personagens Reais: Anis Aura Ayguar, Arda Nefasta, Sabine Passareli
Trilha Sonora Original: Gabriel Massan
Sons adicionais: Artur Seidel, Igor Leite e Lucas Loureiro
Imagens adicionais: Lorran Dias e Diambe
Edição de som: Bernardo Girauta e Alexandre Kubrusly
Mixagem: Alexandre Jardim
Identidade Visual: max wíllà morais
Correção de cor: Mari Cavalcanti
Imagens still: Clarissa Ribeiro

TV Coragem - programa curatorial coordenado por Lorran Dias comissionado pelo programa IMS Convida

Semana Semana - edição com curadoria de Keyna Eleisson do programa realizado pela 

Semana de Cinema em 2020

Programa Pivô Satélite - Retrospectiva da Anarca Filmes no, do espaço Pivô (SP)

BIOGRAFIA DE ARTISTA

BIOGRAFIA DE ARTISTA

 

Créditos: Julia Amin

Formada em audiovisual pela UFRJ, mesma instituição na qual realiza doutorado. Desenvolve tese acerca de processos fílmicos no cinema brasileiro atual que desestabilizam noções convencionais de autoria e exploram a emergência de gestos coletivizados. Pesquisou epistemologias feministas, com publicações no livro Explosão Feminista (Companhia das Letras, 2018) e co-organização do dossiê da Revista Eco-Pós dedicado a esse campo. Integrou a curadoria do evento de poesia, performance e música experimental Subcena, realizado no Audio Rebel (RJ). Apresentou o trabalho de performance e som “Mobilização” no programa “Um berro, um sussuro”, realizado na biblioteca do Parque Lage em 2019. Criou e co-editou a Revista Beira até 2016, é redatora da Enciclopédia Itaú Cultural e atua como crítica de cinema. "Fazemos da memória nossas roupas" é o seu primeiro filme.

FILMOGRAFIA 

Primeiro filme

 

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TRAILER
ENTREVISTA COM MARIA BOGADO PARA O CEN

 

Acredito que a memória só se torna política se sua produção for coletiva e continuada. É por isso que este filme, que surge da aparição de uma memória entre amigas, é apenas mais um ponto de uma rede que vem sendo tramada muito além de nós. Mais do que corpos, tecidos, imagens ou sons, o principal suporte desse filme é a amizade. É a amizade que nos ensina, a cada dia, a lidar com a tarefa paradoxal e irresolúvel de suportar o insuportável. É entre amigas que acendemos o fogo de preparação da comida, trocamos roupas e aprendemos a dançar.

O primeiro nome que demos ao filme foi “Barriga cheia de imagens”. Por acaso, estava cozinhando junto com Sabine e Anis quando receberam um convite para realizar uma performance com Arda e, então, surgiu a ideia de que eu a registrasse. Comemos, jogamos um tarot para ativar memórias e possíveis caminhos de ações e dormi lá, no quarto da Sabine. No meio da madrugada, ela me acordou e disse: “amiga, sua barriga está cheia de imagens”. Levei um susto. No dia seguinte, acordei com a convicção de que esse era o nome definitivo do filme que seria rodado já na semana posterior e que eu estava longe de conseguir imaginar. Desci a ladeira do morro da Conceição com o peso e a curiosidade alegre de quem carrega parte de um filhe.

Até hoje, Anis não me perdoa por ter trocado o nome do filme, que, entre as amigas, continua a ser chamado de “barriga”. Gosto desse apelido -- ou primeiro nome -- porque a barriga é um lugar de processamento das energias vitais e invisíveis que sustentam nosso corpo. Mas gosto especialmente, porque, naquele dia, a barriga estava cheia de uma comida feita em conjunto, assim como a que comemos na mesma cozinha uma semana depois, quando ela era também o nosso set. 

O nome de Matheusa Passareli só foi evocado por Sabine no momento da filmagem. No entanto, não duvido que ela já perpassasse todo o processo como uma força invisível. Do mesmo modo, ela aparece, direta ou indiretamente, nos trabalhos dus muites que lutam pela sua memória, com os quais este filme dialoga diretamente. Gostaria de citar, de forma breve, alguns dos trabalhos que compõem esse esforço de memória. Um deles foi o evento Noite estranha: cuidado, convivência, agência, realizado no espaço de arte Despina, no Rio de Janeiro em 2018. As curadoras Sabine Passareli, Clarissa Ribeiro, Marta Supernova e Lorran Dias descrevem o encontro como “ato-intervenção em diálogo com a vida, obra e poética de Matheusa Passareli, artista negrx e não-binárix assassinadx aos 21 anos no Rio de Janeiro em abril de 2018”. Registros dessa noite podem ser encontrados no site da Despina (http://despina.org/noite-estranha-cuidado-convivencia-agencia/). Lá, além de uma série de homenagens, foram expostos trabalhos da própria Matheusa, como as esculturas Corpos estranhos (2017), disponíveis para serem manuseadas pelo público. Destacaria, também, o trabalho Atrás do muro (homenagem à Matheusa Passareli), de Tadaskia, que realizou a arte gráfica e cartaz do nosso filme. O registro pode ser encontrado em seu portfólio (https://www.tadaskia.com/portf%C3%B3lio, na página 112). No Caderno de artista, apresento mais a fundo os trabalhos de Sabine, nos quais a memória da irmã aparece com mais força. Quanto às referências cinematográficas, Fazemos da memória nossas roupas surgiu quando estava amando Chantal Akerman e Pedro Costa, além de ser diretamente contaminado pela produção da Anarca Filmes. Interessava, em Chantal, sua produção mais próxima do documentário. Nos seus filmes, a composição dos planos rarefeitos e de longa duração deixam a vista cansar do visível e abrem a atenção para a evocação da memória e das camadas invisíveis inscritas nas paisagens. Espero ter deixado tempo suficiente para us espectadores se desprenderem um tanto do que viam mais de imediato e acessarem memórias tanto acionadas pelas pessoas em cena, como pelas paredes, objetos ou roupas. De Pedro Costa, espero ter me aproximado do que percebo ser uma ética do distanciamento. Quando filmamos, em 2018, estava muito forte na minha cabeça o seu ensaio “Uma porta fechada que nos deixa imaginar”, no qual ele reforçava a recusa da tentativa de proporcionar aos espectadores uma experiência de identificação com os personagens. Para ele, quando a identificação acontece, os espectadores deixam de olhar efetivamente para as pessoas filmadas e passam a enxergar a si mesmos nas situações. Talvez por isso eu tenha escolhido fazer planos tão duros e distanciados. Queria que o espectador nunca se esquecesse das singularidades irredutíveis das pessoas em cena para, então, estabelecer não uma identificação direta, mas uma relação implicada com essas vidas. Talvez, assim, o espectador possa ser um pouco como as amigas, ao construírem conversas a partir de suas distâncias e diferenças. Para finalizar, gostaria de ressaltar a conexão da feitura do filme com o processo mais amplo do Projeto ANTI: Residência Fílmica Antifascista, realizada em em 2018 pelo coletivo Anarca Filmes no espaço Saracvra, no Rio de Janeiro. O coletivo tem como característica criar um campo de produção e fruição para os filmes fora dos circuitos tradicionais de cinema. Assim, envolvem em suas produções pessoas desobedientes de gênero de diferentes campos da arte, distintas atividades profissionais e extratos sociais, possibilitando um espaço de convivência para essas indivíduos que transcende a realização fílmica. Por terem iniciado com as festas LGBTQI+ como principais espaços de divulgação de seus trabalhos, sua estética é muito marcada pela sonoridade e performatividades próprias desses espaços.

Nessa residência artística ANTI, o coletivo realizou oito curtas-metragens durante um mês. Participaram dos processos os membros do coletivo, alunos que se inscreveram em uma oficina ministrada por eles, mas também crianças que moravam nas comunidades próximas da zona portuária da cidade, pessoas em situação de rua, além de amigos e conhecidos de diversos locais do Rio e seus arredores. Todos os filmes foram exibidos em uma festa de encerramento que também contou com performances que envolviam a todes, explorando cheiros, sons experimentais que se atinham à ressonância das vibrações nos corpos, entre outros procedimentos que mudavam a relação tradicional dos espectadores com os filmes. Fazemos da memória nossas roupas foi feito nesse contexto de convívio e teve sua primeira exibição (com um corte ainda inicial) nesta festa de encerramento.

***

DEBATE COSMOGONIAS NA PRÁTICA - SEMANA DE CINEMA 2020

REFERÊNCIAS

REFERÊNCIAS

Ó divina - Arda Nefasta (livro de artista)

Crédito das imagens: Arda Nefasta.

Justificativa: Escolhi trabalhar com obras das pessoas filmadas, uma vez que são todas artistas e considero "Fazemos da memória nossas roupas" um encontro de nossas poéticas.

No seu livro de artista, Arda já na primeira página, imprime uma boca com batom e escreve "vermelho da multiplicação". Nas páginas seguintes, o vermelho pinta, borra e deforma corpos retratados em imagens canônicas da pintura europeia do período do Renascimento.

Ela fala de um "fogo sagrado do amor", talvez esse fogo que transforma, mas não mata, dialogue com o fogo que, no filme, serve para cozinhar e iluminar o tarot. 

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Como sugerir detalhes? - Sabine Passareli (Registro fotográfico de performance)

(Os registros são de Chema R. A. (@polksnan) e a ação ocorreu em 2019 na The Fruitmarket Gallery em Endinburgo.)

Justificativa: Escolhi trabalhar com obras das pessoas filmadas, uma vez que são todas artistas e considero "Fazemos da memória nossas roupas" um encontro de nossas poéticas.

Sabine me enviou os registros da performance "Como sugerir detalhes?" na qual ela denuncia o assassinato brutal de sua irmã e se pergunta, em 2019, o que a arte pode fazer para “seguirmos respirando”. Ao pensar sobre a respiração, Sabine articula a experiência estética a uma demanda vital. Acho que suas performances tem o desejo de se embrenhar em nossas vidas, são como ferramentas para práticas de elaboração de memórias e cuidados coletivos. Assim, seus trabalhos extrapolam o estrito campo das instituições de arte e insistem em não se encerrar nos produtos apresentados. 

Em "Como sugerir detalhes?", Sabine retoma gestos e elementos já acionados em nosso filme. O fogo, que na performance aparece nos incensos e deixa cicatrizes em suas mãos, no filme, é utilizado para finalizar sua máscara vermelha, queimada nas pontas.

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Carga Indumento - Anis Aura Yaguar e Sumé Aguiar (Registro fotográfico de performance)

https://www.instagram.com/p/B81cBqIJKqC/

(Registros por @vrrrdi)

Justificativa: Escolhi trabalhar com obras das pessoas filmadas, uma vez que são todas artistas e considero "Fazemos da memória nossas roupas" um encontro de nossas poéticas.

Pedi à Anis para expor a performance "Carga Indumento", realizada por ela em parceria com Sumé Aguiar. As roupas que vestem se misturam com tecidos que recompõem as possibilidades de trânsito no espaço. À primeira vista, os panos pareçam prendê-las. Na verdade, revela-se o contrário: quando uma é suporte da outra, tornam-se tão móveis e leves como a fumaça dos incensos se esvaindo pelo ar. O peso deixa de ser um impeditivo para o movimento quando articulado com uma outra corpa. 

"Carga Indumento" remete, com contundência, à força da coletividade expressa no filme. A performance retoma, também, o investimento na indumentária como campo de experimentação.

 

OBRA CONVIDADA

OBRA CONVIDADA

Luz, Matheusa, Sabine, Salaciona Passareli
De Sabine Passareli (2020, 11min, RJ)
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA - Livre

Sinopse: Sabine filma a casa de Rio Bonito, onde foi criada com sua irmã. Na faixa sonora, ouvimos a voz de Matheusa evocando sua presença naquele espaço.
JUSTIFICATIVA

O filme "Fazemos da memória nossas roupas" evoca as lembranças de Matheusa Passareli a partir de sua ausência. Já em "Luz, Matheusa, Sabine, Salaciona Passareli" temos acesso a sua presença, por meio de sua voz. Considero este filme um complemento importante ao Fazemos para adentrarmos em seu universo afetivo e político, sobretudo levando em consideração de que se trata de uma perspectiva de Sabine, figura central no "Fazemos".