Ruy Guerra: diretor, roteirista, montador, fotógrafo, produtor, ator e cineasta convidado do CineEsquemaNovo 2004






"NÃO TENHO MEDO DO FRACASSO, SÓ DA MEDIOCRIDADE"
"Acho importante juntar as bitolas, acabar com esse racismo e aproximar todos os formatos, pois este é o objetivo. (...) Este esfacelamento é a coisa que eu mais critico em festivais." A declaração foi dada pelo cineasta Ruy Guerra em 2000, quando seu longa-metragem Estorvo foi exibido no Festival de Cinema de Gramado. O discurso, defendido por um dos principais nomes de uma geração que sacudiu a produção nacional a partir dos anos 60, é um estímulo para o caminho escolhido pelo CineEsquemaNovo: a liberdade de poder contar uma história utilizando as mais diferentes formas de expressão cinematográfica.

Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira nasceu em 1931, na cidade de Lourenço Marques, atual Maputo, capital de Moçambique. Seus primeiros contatos com a arte ainda se deram na adolescência, quando escrevia críticas de cinema, contos, crônicas, e produzia filmes em Super-8. Ativista político, lutava pela emancipação de Moçambique dos portugueses e participava de movimentos anti-racistas. À medida que trabalhava como crítico para um jornal na cidade, o interesse pelo cinema crescia. Aos 21 anos de idade, Ruy Guerra ingressou no curso de arte cinematográfica no IDHEC (Institute de Hautes Études Cinematrographiques), em Paris, onde finalizou seu primeiro curta-metragem - Quand le soleil dort, de 1954. Trabalhos como assistente de câmera e assistente de direção começaram a surgir.

O destino natural do jovem cineasta moçambicano seria Portugal, mas a insatisfação junto ao regime repressor imposto pela ditadura Salazar naquele país serviu para Ruy Guerra buscar no Brasil a alternativa de desenvolver uma carreira sem perseguições. Influências alimentadas durante a infância e adolescência, como a revista Tico-Tico e artigos do jornalista, crítico e cineasta Alex Viany em Cena Muda; escritores como Jorge Amado, Erico Verissimo e Manuel Bandeira, além da música brasileira, provocaram a vinda definitiva para o Brasil, em 1958. Convidado pela atriz Vanja Orico para dirigir o filme Joana, o projeto acabou não emplacando. Apresentado ao produtor Carlinhos Niemeyer, passou a fazer parte da equipe de uma verdadeira escola do cinejornalismo: o Canal 100.

A fase verde-amarela de sua trajetória iniciou-se com o documentário sobre candomblé O Cavalo de Oxumaré (1960). Mas foi a partir do encontro com ator Jece Valadão que Ruy Guerra marcou de vez o cinema nacional. O resultado da parceria: Os Cafajestes (1962), considerado a pedra fundamental do Cinema Novo. A cena clássica da nudez de Normal Bengell na beira da praia entrou para a história como o primeiro nu frontal em uma produção brasileira. Mas o longa-metragem de Ruy Guerra não se limitou a esta transgressão. Ousado, classificado por alguns como maldito, o filme que retrata o comportamento irresponsável de dois malandros de Copacabana foi mais adiante. Para quebrar com as chanchadas, Ruy rompeu com a comédia, através de diálogos fortes e falas que se cruzam. A resposta veio nas bilheterias: Os Cafajestes se transformou no maior sucesso comercial do Cinema Novo, apesar de ter sofrido a censura do governo estadual da Guanabara, então sede do governo federal, na cidade do Rio de Janeiro.

Na seqüência, outro marco: Os Fuzis (1964). Um dos filmes políticos mais representativos do cinema nacional, Os Fuzis estava previsto para ser rodado na Espanha. A segunda opção seria a Grécia. Acabou sendo realizado no Nordeste brasileiro. A história original narrava uma invasão de lobos a uma aldeia, no inverno. Na adaptação para o sertão, os lobos viraram flagelados que ameaçavam saquear os armazéns dos comerciantes locais. Apesar de lançado antes do golpe militar de 64, o filme se tornou uma alegoria da queda do regime democrático.

Durante a década de 70, dois filmes se destacam: Os Deuses e os Mortos (1970) e A Queda (1978). A batalha entre um homem sete vezes baleado e os coronéis do Nordeste dos anos 30 é o mote para Os Deuses e os Mortos que, em uma mistura de sexo, religião, realidade e imaginário, conta a história de um revolucionário que se deixa corromper, retratando a violência em clima de ópera popular. Co-dirigido por Nelson Xavier, A Queda retoma a vida dos personagens de Os Fuzis. Dessa vez, eles pertencem à classe operária do Rio de Janeiro. O desafio de alcançar um lugar ao sol sem precisar se corromper é um dos pontos capitais da obra. Primeiro filme de ficção rodado em 16mm e ampliado em laboratório nacional - e um primeiro passo rumo à multiplicidade audiovisual do cinema no futuro -, A Queda provoca, através de flashbacks, uma relação singular entre os dois filmes.

Com a independência de Moçambique no fim dos anos 70, Ruy volta à terra natal para ajudar na criação do Instituto Nacional de Cinema Moçambicano. Em 1980, ele lança o filme Mueda, Memoria e Massacre. Durante a década a seguir, produz dois longas (Erêndira, de 1983, e A Fábula da Bela Palomera, de 1987) roteirizados pelo escritor e ganhador do prêmio Nobel Gabriel García Márquez. Dando movimento à fantasia das obras do autor colombiano, Guerra transformou as histórias de Márquez em "fábulas" que tentam romper a percepção usual dos filmes que recebem tal classificação.

Ao abandonar o tratamento radical de temas políticos, Ruy Guerra lança uma série de trabalhos de grande beleza estética e apelo comercial. Ópera do Malandro (1985) é uma divertida comédia musical, adaptada da obra de Chico Buarque, que não deixa de abordar assuntos econômicos e sociais sérios, como racismo e influências americanas no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Em uma época em que poderia soar como loucura fazer um musical, Ruy levou a falsa ópera com verdadeiros malandros do palco para a tela. "Nunca fui tão subversivo. A Ópera é sem dúvida o meu filme mais político", disse, na época, ao Jornal do Brasil. Kuarup (1988), uma das maiores superproduções do cinema brasileiro até então, traduz de modo eloqüente o romance de Antonio Callado.

Em 1999, em mais uma dobradinha com Chico Buarque, Ruy lançou Estorvo, conseguindo levar o pesadelo existencialista do personagem EU, do livro de Chico, para a tela. O cineasta foi fundo em sua pesquisa estética, transferindo a força do texto de Chico Buarque para cenas marcantes, em um expressivo trabalho de direção de fotografia que resulta em um dos filmes mais ousados da retomada do cinema brasileiro no final dos anos 90.

Portugal S/A (2004), o mais recente filme de Ruy Guerra, participou da última edição do Festival Internacional de Cinema de Moscou (Rússia), em junho deste ano. De acordo com os produtores, é uma metáfora satírica sobre um país "onde tudo se compra e tudo se vende" e que dá a conhecer um outro lado da sociedade portuguesa e os bastidores da vida política nacional. Atualmente, o diretor está às voltas com o longa-metragem Veneno da Madrugada, uma nova adaptação de García Márquez, desta vez para seu romance La Mala Hora.

A importância de Ruy Guerra para o cinema nacional está muito bem expressa no livro As Grandes Personagens da História do Cinema Brasileiro - 1960/1969, organizado pelo pesquisador Eduardo Giffoni Flórido:

"Alternando trabalhos dentro e fora do Brasil com o mesmo talento e marca pessoal, Ruy nunca abdicou dos seus postulados estéticos e políticos. Intransigente, inquieto, insatisfeito, está sempre aberto a novos rumos. Em quase todos os seus filmes o realismo se mistura ao fantástico. Para ele não existe fronteira entre ciência e magia, trabalha com os dois instrumentos, que, segundo ele, não são excludentes, mas complementares. Não gosta de filmes impressionistas. 'É preciso que haja uma história para disciplinar a emoção das coisas. Menos que explicar as coisas é preciso deixar que elas se revelem'. E o que se revela na história de Ruy Guerra é o compromisso ético e político de não fazer de sua arte um instrumento de acomodação estética."
FILMOGRAFIA RUY GUERRA
Quand Le Soleil Dort, 1954
Oros, 1959
Cavalo de Oxumaré, 1960
Os Cafajestes, 1962
Os Fuzis, 1964
Sweet Hunters, 1969
Os Deuses e os Mortos, 1970
A Queda, 1977
Operação Búfalo, 1978
Mueda, Memória, Massacre, 1979
Danças Moçambicanas, 1979
Um Povo Nunca Morre, 1980
La Lettre Volee, 1981
Erêndira, 1983
Os Comprometidos, 1984
Talk To Me, 1984
Ópera do Malandro, 1985
A Fábula da Bela Palomera, 1987
Kuarup, 1988
Obvious Child, 1990
Me Alquilo para Soñar, 1991/92
Carta Portuguesa Sarajevo, 1993
Estorvo, 1999
Monsanto, 1999
Portugal S/A, 2004


Confira a programação da Mostra Ruy Guerra no CineEsquemaNovo 2004







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