CINE ESQUEMA NOVO
ARTE AUDIOVISUAL
BRASILEIRA 2018


Um festival de arte audiovisual em pleno The Times They Are A Changin', como a canção de Bob Dylan, do nosso Brasil. E a pergunta essencial consequente: o que é necessário dizer? Ou sobretudo, fazer? Ou mais especificamente, exibir?

 

Ao conceber este texto que você lê neste momento, deparamo-nos com o nosso passado recente. Com aquilo que escrevemos e organizamos, nas últimas edições, para partilhar com o mundo enquanto proposta e olhar curatorial para o CEN. Queríamos, como sempre acontece, dar continuidade a um fio condutor maior, a algo que extrapola a edição de um ano específico: esta é uma narrativa que cresce, se transforma, já há 15 anos. Que acompanha o tempo. O Tempo que sopra a mudança. They Are A Changin’.


E qual foi a nossa surpresa ao perceber que falar em “resistência” hoje, já não tem o mesmo significado do que em 2016 ou mesmo 2017.


No CEN de 2016 (nossa última edição), o tema da resistência já lá estava em letras garrafais. Não apenas para falar de resistência em termos de preservação da diversidade da linguagem audiovisual, algo que nos define enquanto festival, mas também de resistência para assegurar diferentes formas de ver o mundo, de buscar o equilíbrio, de sublimar antagonismos. De ser e fazer política. De ser e fazer tudo. Algo que também nos define. Dissemos:


Resistência da película num mundo digitalizado, resistência da arte em meio a ataques censores, resistência das liberdades versus o moralismo retrógrado, resistência política (e tudo é política) diante de uma nova onda conservadora tsunâmica. Queremos acreditar que a programação que preparamos para esta edição atua como uma barreira que protege os nossos mais lindos delírios. (...) Nelas, há guerra. Há resistência. Delas, emerge uma política-estética multi e transgênero, indígena, anárquica, reminiscêntica, desbocada, ética, amoral. Uma poética apocalíptica. Que mesmo quando não é, é. (...) Porque a vida, e por consequência a arte, é feita de realidade mas também de sonho. E onde termina um, e começa o outro? Eis o mistério que transforma o delírio em mudança; eis a necessidade de “construir a barreira” que o faz resistir.
O primeiro pensamento para este ano seria: “se esta foi a nossa mensagem em 2016, qual não seria a nossa mensagem em 2018 senão a necessidade de resistir?”

 

Mas parece-nos que este não deve ser o pensamento agora. Talvez seja mesmo bom não falarmos de “resistência” enquanto o verniz que cola e dá unidade ao CEN 2018. Pois é preciso facilitar a próxima fase: passar da catarse para a construção.


Acreditamos que “resistir” não é mais a única coisa que precisamos dizer, fazer ou exibir neste momento. Até porque, no nosso íntimo, isso estará sempre subjacente. A mudança impôs-se como realidade. O que fazer com ela? O que dizer, fazer e exibir enquanto um festival que sempre quis construir pontes, e não cavar fossas ou levantar muros?


A produção selecionada para este ano evidentemente grita por socorro, sente dor, faz alertas, escancara absurdos e satiriza. Mas lentamente (até por representar um período da produção brasileira ligeiramente anterior ao auge da loucura instaurada nos corações e mentes dos brasileiros nos últimos meses) procura levar todo este caos para outro lugar.


Os ventos da mudança também sopraram sobre a Mostra Competitiva Brasil do CEN e este ano a curadoria foi reconfigurada e composta pelos organizadores do festival, Jaqueline Beltrame e Ramiro Azevedo, e pelo convidado e parceiro Vinícius Lopes da produtora Pátio Vazio. A mostra, que é o cerne e o coração do CEN, sempre teve como característica refletir a sociedade brasileira e a beleza da sua pluralidade - são índios, negros, mulheres, trans, imigrantes nos mais diversos retratos nas telas e também retratando suas realidades. Pertencimento, queer, religiosidade, memória, colonialismo, ancestralidade, cultura pop e pastiche, especulação imobiliária, crítica ao agro - esses são apenas uma amostra dos assuntos tratados nessa seleção de 39 obras. Foram 875 inscrições - 666 curtas e médias-metragens, 103 longas-metragens e 106 videoinstalações, vídeo performances e performances de 24 Estados. Um panorama bem amplo do que nós brasileiros estamos produzindo no momento.


Entre os selecionados, um belo diálogo com realizadores de muitos estados do nordeste e centro-oeste. A lista conta com 13 projetos dirigidos por grupos, 13 realizadoras e 36 realizadores de onze estados e nove produções assinadas por brasileiros realizadas no exterior, de obras extremamente posicionadas e políticas - independente de sua linguagem. Mais brasileiros do que nunca - aproximando fronteiras e sotaques, representando os quatro cantos do país, expondo tanto nossas raízes quanto nossos seres contemporâneos, numa miscelânea antropofágica que daria orgulho a Oswald de Andrade. Mais que resistir, nossa missão como um festival de Arte Audiovisual Brasileira foi cumprida: retratamos nossa existência. E independente de para onde nossa política levará nosso país, seguiremos existindo.


Nosso artista convidado desta edição, o alemão Philip Widmann, apresenta a Mostra Topographical Translations, que reúne trabalhos de sua autoria e de outros artistas que tentam situar questões de representatividade e inteligibilidade. Em sua obra, Widmann questiona uma troca de experiência entre culturas, linguagens e presenças, assim como explora as possibilidades de uma mediação que transcende as subjetividades individuais. Um histórico acadêmico em Antropologia Cultural informa sua prática em formas documentais ensaística e experimental na mesma medida. Neste contínuo movimento de busca, Widmann localiza o campo de suas explorações firmemente no chão, mesmo que os temas com os quais ele lida subam até o céu ou já tenham deixado o mundo material e visível, pois elas existem.


O Duo Strangloscope, dos realizadores Cláudia Cárdenas & Rafael Schilchting, parceiros de longa data do CEN, apresenta uma mostra especial este ano. Existir/Resistir traz à tona questionamentos e diálogos que surgem em tempos de mudança. The Times, They Are a Changin’. Como persistir, resistir, prosseguir em tempos de crise, guerrilha urbana, catástrofe? Como pensar política hoje? Como pensar arte e política? Como pensar a alteridade? Como trabalhar e criar junto? O que fazemos e em que pensamos quando construímos imagens? Como somos construídos a partir de imagens?


Como pensar uma nova forma de existir em meio ao que vivemos?


Existindo e criando. “Criar formas e sons é habitá-los e por eles sermos habitados. As paisagens/imagens visuais e sonoras são um dos modos da presença que tornam uma só a realidade do objeto em si e a sua existência. Imaginar é ausentar-se, é lançar-se a uma vida nova”.


E na busca de novas formas e maneiras de existência e resistência, nossas atividades formativas também vêm ao encontro desses questionamentos. A Oficina Câmera Causa, ministrada por Gustavo Spolidoro e Jadhe Fucilini, proporciona a grupos em vulnerabilidade social, entidades assistenciais, grupos, escolas e entidades com trabalho social, um processo de compreensão e realização audiovisual que ajude estes coletivos a ampliar suas lutas e torná-las cada vez mais públicas e reconhecidas.

Instrumentalizando esses personagens quase sempre sem voz, o projeto oferece um espaço antes não alcançado por esses grupos, onde são representados. A existência é viralizada. Uma oportunidade de quem sempre é não-visto de abrir janelas de um conteúdo criado por estes grupos, de forma independente, autoral e livre. O jornalista e crítico de cinema Daniel Feix traz uma análise sobre a produção contemporânea audiovisual brasileira em sua oficina Crítica no Brasil Hoje, apresentando tanto o que se produz na atualidade no nosso país como uma nova maneira de analisar contemporaneamente essas produções. The Times, They Are a Changin’. Já não fazemos filmes como antigamente, muito menos os assistimos e pensamos sobre eles da mesma maneira. É preciso também repensar como analisamos e criticamos. A imagem na contemporaneidade também é tema do Seminário Pensar a Imagem, com a artista visual, professora de Artes Visuais na UFRGS Elaine Tedesco, professor da Unisinos e Doutorando em Poéticas Visuais pela UFRGS James Zortéa e a jornalista, doutora em cinema e professora da PUCRS Maria Henriqueta Creidy Satt. Uma reflexão sobre a imagem contemporânea, abordando especificidades teóricas, técnicas, conceituais, narrativas e de circulação, entre outros aspectos, associados à produção autoral e experimental de imagens no século 21. Existir é mais do que nunca nossa resistência nesses tempos de mudança. Nos questionarmos e irmos em busca de novas respostas e pontos de vista, nossa missão necessária para nos mantermos presentes, existentes e produzindo. Que esta edição do Cine Esquema Novo 2018 seja tão inspiradora para cada pessoa presente em nossas atividades quanto tem sido para nós esta construção e troca. E para sobreviver aos ventos da mudança, um pouco da sabedoria de Brecht para iluminar nosso caminho: “Nossos inimigos dizem: a luta terminou. Mas nós dizemos: ela começou. Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada. Mas nós sabemos: nós a sabemos ainda. Nossos inimigos dizem: mesmo que ainda se conheça a verdade ela não pode mais ser divulgada. Mas nós a divulgaremos. É a véspera da batalha.


É a preparação de nossos quadros. É o estudo do plano de luta. É o dia antes da queda de nossos inimigos. De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida.”
Cine Esquema Novo:


Alisson Avila, Gustavo Spolidoro, Jaqueline Beltrame, Ramiro Azevedo

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